«A segurança começa a estar em crise»

O assalto aos Paióis Nacionais de Tancos, na semana passada, e outros roubos de armas neste ano e nesta década, são, para o presidente do Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo (OSCOT), um sinal de que “a segurança começa a estar em crise”. Antes do assalto de importante material militar de três paióis de Tancos, tinham desaparecido em Fevereiro deste ano, de uma arrecadação da Direcção-Nacional da PSP em Lisboa 57 pistolas; o inquérito judicial encontra-se em segredo de justiça. Em 2011, dez armas desapareceram da Carregueira (quartel dos Comandos) – nunca foram encontradas e o processo foi arquivado por falta de provas. Nesse ano, também da Base do Alfeite, onde estão os fuzileiros, seis armas – duas espingardas, duas pistolas metralhadoras e duas pistolas – foram roubadas.

“Com estes roubos e com as falhas do SIRESP [Rede Nacional de Emergência e Segurança resultante da parceria público-privada promovida pelo Ministério da Administração Interna] durante os incêndios, a segurança começa a estar em perigo”, diz numa entrevista por telefone António Nunes, que substituiu o ex-ministro da Administração Interna Rui Pereira na presidência do OSCOT. “Começam a aparecer várias situações em que a segurança está em discussão.”

“Não se pode dizer que não houve assaltos desta dimensão em países da Europa ou da NATO. Mas certamente se aconteceram, não foi por existirem deficiências na segurança das instalações militares como neste caso. Não houve assaltos de armas noutros países nestas circunstâncias”, afirma António Nunes. “É impensável numa zona sensível como a de Tancos não haver uma vigilância mais apertada”, acrescentou sem querer comentar as declarações, nesta segunda-feira, do Chefe de Estado-Maior do Exército (CEME), general Rovisco Duarte, de que a segurança no paiol de Santa Margarida é semelhante à existente em Tancos.

“O Exército tem planos de segurança para todas as suas instalações. Poderá não os ter implementado por razões diversas. Se os planos que os militares têm para a protecção das suas instalações estivessem devidamente implementados, o furto não teria ocorrido da forma como ocorreu.” Ou seja, “com as duas redes [uma interior e outra exterior], o patrulhamento aleatório”, além da videovigilância que deveria estar a funcionar se o plano de segurança estivesse a ser implementado, “o furto não seria possível”, diz o presidente do OSCOT.

“O que isto quer dizer é que o Governo tem de mudar o seu paradigma, de forma a que a segurança não seja uma questão de despesa mas de investimento”, insiste. “Naquilo que diz respeito à segurança não pode haver uma diminuição das verbas e depois ocorrer uma situação como estas que são irreparáveis.” E acrescenta: “Os vários sistemas que existem para garantir a segurança dos cidadãos e das instituições não podem abrandar.”

O presidente do Observatório afasta a hipótese de o armamento roubado se encontrar ainda em Portugal. Os autores do crime seriam encontrados. “O problema não é furtar. É colocar no mercado de armas internacional”, afirma, acrescentando que “essa necessidade de escoamento do material furtado” e “a sofisticação do assalto” apontam para o envolvimento de um grupo internacional de crime organizado. “Tudo leva a crer que a criminalidade organizada busca pessoas de várias nacionalidades e é possível que estejam, integrados no grupo, portugueses. Mas em Portugal não temos conhecimento da existência de organizações de portugueses para portugueses” de crime organizado “com este grau de sofisticação”.

Entrevista publicada no jornal Público