Portugal não tem uma cultura de segurança

Portugal não tem uma cultura de segurançaO presidente do Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo (OSCOT), António Nunes, considera que somos um país em que as regras de segurança que deveriam pender sobre as funções não são postas em causa porque a avaliação do risco é muito baixa.

E afirma, em entrevista ao Diário de Notícias, que com a sofisticação tecnológica já não há comunicações seguras.

Considera adequado o nível de segurança nas comunicações entre agentes do Estado?

Não se pode dizer que haja uma rede no governo segura para todos os seus membros e para todas as situações, quer seja a fixa quer seja a móvel. Mas com os equipamentos sofisticados que existem no mercado é quase impossível garantir a pureza da comunicação. Mesmo dois ministros a conversarem ao almoço podem ser escutados. Não há comunicações seguras! Ponto. Quando existem situações que exigem a máxima segurança nacional, as decisões têm de ser tomadas fora de locais públicos.

Mas há uma falta de cultura de segurança em Portugal ou não?

Os membros do governo não andam em carros blindados, não têm gabinetes seguros e continuam a morar nas suas casas. Isto é inimaginável noutros países. E Portugal tem uma falta de cultura de segurança porque a avaliação do risco, por parte das entidades competentes, é baixa. A questão das comunicações até é a de menor importância.

Mas qual a razão para essa avaliação de risco ser tão baixa?

A função determina um conjunto de regras mas nós não temos essa prática. O Presidente da República e o primeiro-ministro não podem viajar no mesmo avião por questões de segurança, mas podem estar 365 dias em risco de morrerem os dois ao não terem segurança reforçada nos seus gabinetes, nos seus carros e nas suas casas, mesmo em caso de um sismo. Ou se faz segurança ou não se faz!

Entrevista publicada no Diário de Notícias, 26 de fevereiro de 2017.

Paula Sá | Diário de Notícias

Júlio Lobo Pimentel | Global Imagens